Já sentiu que, apesar de mudar o calendário, parece que está a viver o mesmo capítulo da sua vida outra vez? Talvez seja o tipo de relações em que se envolve, a forma como se cala em reuniões importantes, ou aquela procrastinação ansiosa que surge sempre que um projeto se torna sério. Mudar o calendário não muda o cérebro.
Durante a maior parte do ano, vivemos em “piloto automático”. Estes comportamentos repetitivos — a que chamamos padrões — operam nas sombras. Eles ditam como reagimos quando alguém nos critica ou por que nos sentimos culpados quando descansamos. São como velhas estradas (neuronais e emocionais) que percorremos porque sempre foi assim. É o caminho que conhecemos. Estes padrões não são defeitos, são esquemas antigos que foram criados para nos manter vivos ou para nos protegermos da dor no passado. Eles trouxeram-nos até aqui e tiveram valor por isso. O problema é que, muitas vezes, eles já não nos servem, mas, infelizmente, continuam a ditar as nossas reações.
No dia a dia, a rotina é tão intensa que estes comportamentos passam despercebidos. Estamos tão ocupados a sobreviver ao dia, que não vemos o padrão; somos o padrão. Até que chega a passagem de ano e de repente paramos para pensar e repensar de onde viemos e para onde queremos ir. O dia 1 de janeiro traz consigo uma espécie de anestesia temporária dos velhos hábitos e uma força renovada para os mudar. Apoiados na esperança e na força de vontade, criamos a ilusão de um “Novo Eu” capaz de fazer reset. Acreditamos piamente que o nosso cérebro e as nossas emoções vão subitamente reprogramar-se e ignorar décadas de aprendizagem emocional, apagando padrões gravados na nossa biologia. Inscrevemo-nos no ginásio, compramos uma agenda nova e prometemos ser mais calmos. Iludimo-nos que, desta vez, a disciplina vai vencer o medo, ou que a lógica vai calar a insegurança. Mas, como sabemos, a razão raramente ganha um braço de ferro com uma emoção profunda.
À medida que a adrenalina do início do ano se dissipa, a realidade instala-se. É geralmente nesta altura, passados os primeiros dois meses, que a razão começa a perder o braço de ferro, tornando dolorosamente visíveis os padrões antigos. A dieta falhou não por falta de vontade, mas porque a comida acalma uma ansiedade não dita. O limite que prometeu colocar ao chefe não foi colocado, porque o medo de rejeição falou mais alto. De repente, vê-se exatamente no mesmo lugar onde estava em dezembro. Sente-se preso, sufocado, sem saída. A quebra da ilusão do “Novo Eu” traz frustração, vergonha ou tristeza.
Dói perceber que não saímos do sítio, que estamos a repetir os mesmos erros. Ao mesmo tempo, parece que encontramos a nossa janela de oportunidade para fazer diferente. Esta consciência desconfortável é o melhor momento para pedir ajuda. Porquê? Porque é mais fácil trabalhar num padrão quando ele está visível e “quente” do que quando está escondido sob a correria de novembro.
Na psicoterapia, olhamos para esta dor não como um fracasso, mas como um sinal vital. É como uma luz vermelha a piscar no painel do carro a avisar que algo não está bem e precisa de atenção. Enquanto a ilusão de janeiro nos mantém cegos, a desilusão de agora traz clareza. É a dor de perceber que o padrão existe que nos dá a motivação necessária para ir à raiz do problema. De acordo com a Teoria Focada nas Emoções, só podemos sair de um lugar quando reconhecemos, verdadeiramente, que estamos nele. Saber que tem um padrão é o primeiro passo, mas saber não é mudar. A psicoterapia individual ajuda-o a processar as emoções que mantêm esses padrões vivos. Não vamos apenas “falar sobre” o problema; vamos:
- Identificar a origem emocional do padrão.
- Sentir o que ele está a tentar proteger.
- Transformar essa emoção antiga numa nova forma de agir.
Se sente que os seus padrões voltaram a ocupar o lugar das suas promessas de ano novo, não se julgue. A crítica só reforça o padrão. Reconheça que não precisa de mais disciplina, mas sim de mais profundidade. Aproveite a clareza. Talvez este não seja o ano em que vai mudar à força, mas o ano em que finalmente vai sentir a mudança e transformar-se por dentro.