Skip links

Quando tudo funciona por fora, mas por dentro está pesado

“Tenho uma família fantástica, os meus filhos estão bem, os meus pais estão cuidados e não me falta nada. Devia sentir-me feliz, mas sinto um peso enorme.”

Se é cuidador — seja de filhos, pais ou outros familiares —, conhece bem esta realidade. A comida está na mesa, as consultas estão marcadas, as rotinas cumprem-se na perfeição. Na logística, você é imbatível. Mas, no silêncio do fim do dia, surge um peso inexplicável no peito. A sua alegria de viver parece ter ficado esquecida num canto. Quando a logística mata a emoção, o descanso físico de uma boa noite de sono já não resolve o problema.

Este peso constante não é apenas cansaço, mas sim uma forma de tristeza que surge quando as nossas necessidades de sermos vistos, nutridos e apoiados são sistematicamente adiadas em prol do dever. O problema agrava-se quando tenta resolver este mal-estar com a lógica, dizendo a si mesmo: “não me devia sentir assim”, “não tenho o direito de me queixar”, “eles precisam de mim”, “estou a ser ingrato”, “há pessoas em situações piores”. Mas as emoções raramente respondem a argumentos racionais. Tentar usar a lógica para sair da tristeza é como tentar apagar um fogo com gasolina; só aumenta a frustração e a culpa.

Para o nosso cérebro emocional, toda a emoção funciona como uma bússola que aponta para uma necessidade humana essencial. Se sente esse peso constante, pare, dê-lhe a sua atenção e tente perceber o que essa sensação lhe está a dizer. Pergunte-se a si mesmo do que é que realmente precisa? 

  • Será uma palavra de reconhecimento pelo seu esforço, que muitas vezes é invisível para os outros?
  • Será da coragem para colocar um limite e dizer “hoje não consigo”, sem ser consumido pela culpa?
  • Ou será, simplesmente, de um abraço apertado onde, por uma vez, não seja você a ter de sustentar o outro?

Para transformar uma emoção pesada, precisamos de aceder a uma nova emoção: a autocompaixão. É aqui que o convido a um pequeno exercício de mudança de perspetiva:

Exercício: Se uma das pessoas que cuida lhe confessasse que se sente exausta e pesada, apesar de ter “tudo”, o que lhe diria? Provavelmente não a julgaria, nem a mandaria trabalhar mais. Usaria uma voz gentil e compreensiva. O convite aqui é começar a usar essa mesma voz para consigo mesmo. Só quando validamos o que sentimos — sem julgamento ou culpa — é que o peso começa, finalmente, a dissipar-se.

Cuidar de quem ama é nobre, mas não tem de vir com anulação pessoal. Se sente que a sua vida é um sucesso no papel, mas um fardo no coração, tente começar a olhar para dentro com a mesma dedicação com que olha para fora. A psicoterapia é o espaço onde deixa de ser o cuidador de todos para ser, finalmente, cuidado. É o lugar onde aprendemos a ouvir a bússola das nossas emoções e a transformar o peso da obrigação na leveza de uma vida mais autêntica.

Explore
Drag