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Dizer ‘não’ sem culpa: porque é tão difícil colocar limites?

Quantas vezes a sua boca disse “Claro, eu trato disso” enquanto a sua cabeça gritava, em pânico, um “NÃO” ensurdecedor?

Se este cenário lhe é familiar – e acredite que não tenho prazer em dizer-lhe isto – você é um mestre na arte da autoanulação. Infelizmente, não está sozinho. Vivemos numa cultura que romantiza a disponibilidade total, mas raramente falamos sobre o custo emocional de ser “a pessoa que diz sim a tudo”. O problema é que, cada vez que a sua boca diz “sim” quando a sua cabeça diz “não”, está a assinar um contrato de traição consigo mesmo.

 

Aquele aperto no estômago e a culpa automática que sente ao pensar em dizer “não” são apenas a ponta do icebergue. Na verdade, para a psicoterapia moderna — com bases na teoria de Leslie Greenberg — a culpa e a ansiedade funcionam muitas vezes como um escudo protetor. Elas escondem o que está submerso

Por baixo da linha de água, a estrutura que sustenta esse “sim” forçado é muito mais densa. Lá em baixo, escondidos na escuridão, estão os verdadeiros motores da sua dificuldade — forças que operam no seu ponto cego e que se tornam mais acessíveis através do trabalho psicoterapêutico. Frequentemente, o que encontramos nessas profundezas são:

  • O medo visceral do abandono: A ferida central que lhe diz que, se dececionar o outro ou deixar de ser útil, ficará completamente sozinho.
  • A vergonha e a crença de “não ser suficiente”: A ideia antiga de que quem você é, na sua essência, não basta para ser amado, tendo de “comprar” o seu valor através do sacrifício.

O peso do “não” nasce da ideia errada de que ele é sinónimo de desrespeito. Contudo, dizer “não” não é um ataque ao outro, é uma defesa do seu próprio equilíbrio. Quando você evita colocar um limite por medo de parecer egoísta, está, na verdade, a ser desonesto com a relação. Está a oferecer um “sim” que vem carregado de ressentimento futuro.

A verdadeira integridade acontece quando o seu exterior reflete o seu interior. Se o seu corpo está a gritar cansaço, o seu “não” é o ato mais ético e cuidadoso que pode praticar. Limites não servem para afastar as pessoas; servem para definir onde você termina e onde o outro começa, permitindo que a relação seja baseada na verdade e não no medo da desaprovação.

Hoje, quero propor-lhe que faça uma lista de “nãos”. Pense naquela pessoa, naquele convite ou naquele projeto que lhe está a drenar a energia só de pensar nele. Visualize-se a dizer: “Agradeço o convite, mas desta vez não vou conseguir”.

O desafio é: Diga esse “não” hoje. Sem dar mil explicações (que são apenas justificações para a sua própria culpa) e sem pedir desculpa por existir. Sinta o tremor nas mãos, sinta o desconforto… e depois sinta o espaço que acabou de criar para si próprio e orgulhe-se disso

Dizer “não” ao que o desgasta é a única forma de dizer um “sim” real ao que importa.

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