Skip links

Saber mais não é o mesmo que decidir melhor

Já sentiu que, quanto mais formações soma ao currículo, mais inseguro parece ficar diante do paciente ou do objeto de estudo? Seja no consultório ou no laboratório, o foco atual está no “saber, saber, saber”. Os psicólogos são bombardeados com o novo modelo terapêutico da moda, a última descoberta da neurociência ou aquele workshop imperdível de fim de semana. Todavia, estar a par de tudo e acumular conhecimento não é o mesmo que processar e aplicar sabedoria. E muito menos que fazê-lo com confiança, segurança e ética.

Muitos profissionais gabam-se de estar em permanente “formação contínua”, quando na realidade isto é muitas vezes um mecanismo de defesa. É a ilusão de competência: acreditamos que se fizermos mais um curso, lermos aqueles 50 artigos novos e tivermos a biblioteca cheia de livros, a nossa ansiedade desaparecerá e sentir-nos-emos mais seguros para conduzir o nosso trabalho. Infelizmente, o resultado é exatamente o oposto.

  • O excesso de ruído: Quando tem 10 ferramentas diferentes para o mesmo problema, mas não compreende a estrutura do comportamento humano por trás dele não terá a confiança para escolher uma e aplicá-la. Irá ficar paralisado.
  • O trigo e o joio: Sem uma base sólida de reflexão e pensamento crítico, é impossível distinguir o que é ciência robusta do que é apenas marketing terapêutico, deixando-o numa permanente indecisão sobre o que é central e o que é acessório. Enquanto trabalha, a voz da insegurança não o largará.

Seja prática clínica ou na investigação, isto traduz-se naquela sensação de estar “perdido na tradução” entre a teoria do livro e a pessoa real sentada à nossa frente. Os dados estão lá, mas falta-lhes o sentido.

Imagine o psicólogo que domina cada critério diagnóstico da Perturbação da Personalidade Borderline, mas, no silêncio do consultório, sente-se paralisado e não consegue gerir a transferência negativa de um paciente que se sente falhado e o ataca subtilmente. O conhecimento teórico está lá, mas a competência de decisão clínica — o saber estar e intervir no momento — não se encontra nos livros

Ou pense no investigador que domina o tema do seu trabalho de forma exímia, mas vê o seu artigo bloqueado porque não consegue descodificar, compreender ou dar uma resposta estratégica às críticas dos revisores. Aqui, o problema não é a falta de dados, é a falta de clareza para navegar o processo de revisão e a política científica.

O que falta não é mais uma pós-graduação nem um livro. Falta confiança, coragem e discernimento. Decidir o caminho terapêutico ou o rumo de um artigo exige a capacidade de filtrar o acessório para focar no essencial. Exige o “desbloqueio” de processos que a teoria, por si só, não ensina. Saber é um processo de absorção; decidir é um processo de ação. E a transição entre os dois é onde a maioria dos profissionais se sente isolada. É aqui que pedir apoio ganha o seu verdadeiro valor. Não se trata de ter mais informação, mas sim de ter alguém disposto a ouvir os seus medos e inseguranças num espaço seguro para começar a:

  • Processar o que já sabe (transformar informação em competência real).
  • Saber o que ignorar (filtrar o ruído para focar na eficácia).
  • Ganhar segurança na decisão (seja num diagnóstico complexo ou num desenho experimental rigoroso).

Pedir ajuda para organizar o caos mental não é sinal de falta de conhecimento — é o sinal máximo de maturidade profissional. É passar da acumulação passiva para a mestria ativa.

Explore
Drag